Quando começar o PSA? Como o rastreamento do câncer de próstata mudou com a ressonância
Todo ano, quando o Novembro Azul se aproxima, a mesma pergunta aparece no consultório: a partir de que idade devo fazer o PSA? A resposta curta é que, para a maioria dos homens, a conversa começa aos 50 anos — e mais cedo para quem tem maior risco. Mas o rastreamento do câncer de próstata mudou bastante nos últimos anos, e entender o que mudou ajuda a decidir com mais segurança.
Neste artigo, explico quando começar, por que o PSA sozinho não basta e qual é o papel da ressonância magnética antes da biópsia.
Quando começar o PSA?
No Brasil, o posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) e da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), de 2023, orienta discutir o rastreamento com homens acima de 50 anos que tenham expectativa de vida maior que 10 anos, e com homens entre 40 e 50 anos que tenham histórico familiar, sejam afrodescendentes ou tenham mutação patogênica no gene BRCA.
As diretrizes internacionais seguem lógica parecida. A diretriz europeia (EAU, 2026) recomenda oferecer o PSA precoce a homens bem informados a partir dos 50 anos; a partir dos 45 anos para quem tem histórico familiar de câncer de próstata antes dos 60 anos e para afrodescendentes; e a partir dos 40 anos para portadores de mutação no gene BRCA2. A diretriz americana (AUA/SUO, atualizada em 2026) indica que o médico pode oferecer um PSA de referência entre 45 e 50 anos e deve oferecer o rastreamento a partir dos 40 a 45 anos para quem tem risco aumentado — ancestralidade africana, mutações hereditárias (como BRCA1 e BRCA2) ou forte histórico familiar. Entre 50 e 69 anos, recomenda repetir o exame a cada 2 a 4 anos.
Em todos os casos, o rastreamento é uma decisão compartilhada: o urologista apresenta benefícios e riscos, e você participa da escolha. Vale saber que o Ministério da Saúde e o INCA, em nota técnica de 2023, recomendam não realizar rastreamento populacional do câncer de próstata, por entenderem que ele aumenta o diagnóstico sem redução significativa da mortalidade específica e com danos importantes. A mesma nota orienta uma ampla discussão sobre riscos e benefícios, para decisão compartilhada, com os homens que solicitarem o exame.
Por que o PSA sozinho não basta
O PSA é uma proteína produzida pela próstata, e seu nível no sangue pode subir por vários motivos além do câncer: hiperplasia benigna (próstata aumentada), prostatite, infecção urinária e até ejaculação ou exercício intenso nos dias anteriores ao exame. Por isso, um PSA alterado não significa câncer — e um PSA dentro do esperado não garante a ausência dele.
Esse é o grande desafio do rastreamento: usado isoladamente, o PSA pode levar a biópsias desnecessárias e ao diagnóstico de tumores de crescimento lento que nunca dariam problema — o chamado sobrediagnóstico. Esse foi, por muitos anos, o principal argumento contra o rastreamento. Para entender melhor como interpretar o resultado, veja o artigo sobre o PSA livre e o PSA total.
O que mudou: a ressonância antes da biópsia
A ressonância magnética multiparamétrica da próstata mudou esse cenário. Em vez de indicar a biópsia apenas pelo número do PSA, hoje é possível fazer a ressonância primeiro: se há uma área suspeita, a biópsia é direcionada a ela; se o exame não mostra lesão suspeita, muitas vezes a biópsia pode ser evitada.
O estudo sueco Göteborg-2, publicado no New England Journal of Medicine em 2024, testou exatamente essa estratégia em cerca de 13 mil homens de 50 a 60 anos rastreados com PSA; aqueles com PSA de 3 ng/mL ou mais faziam ressonância. Após um seguimento mediano de 3,9 anos, o câncer de próstata foi diagnosticado em 2,8% dos homens do grupo em que a biópsia foi feita apenas nas lesões vistas na ressonância, contra 4,5% no grupo da biópsia sistemática tradicional. A diferença veio principalmente dos tumores clinicamente insignificantes, cuja detecção caiu mais da metade (risco relativo de 0,43). A detecção de câncer clinicamente significativo não foi estatisticamente diferente entre as duas estratégias (risco relativo de 0,84; intervalo de confiança de 95%: 0,66 a 1,07).
Na diretriz AUA/SUO de 2026, o uso da ressonância antes da primeira biópsia segue como uma recomendação condicional (o médico “pode” usá-la), agora com nível de evidência A. Um ponto importante: uma ressonância normal reduz muito o risco, mas não o zera. Em uma análise do próprio Göteborg-2 com homens que tiveram ressonância inicial negativa, a incidência acumulada de câncer clinicamente significativo em 7 anos foi de 7,1%. Por isso, o acompanhamento com PSA periódico continua necessário, e a qualidade do exame e de quem o interpreta faz diferença.
Como fica o caminho na prática
Na prática, o caminho costuma ser este. Primeiro, uma consulta para avaliar sua idade, histórico familiar, sintomas urinários e outros fatores de risco. Em seguida, o PSA e, quando indicado, o toque retal. Se o PSA vem alterado, o urologista pode refinar o risco com a densidade do PSA, a relação PSA livre/total ou calculadoras de risco. Dependendo do quadro, vem a ressonância e, somente se houver lesão suspeita, a biópsia direcionada. Se tudo estiver normal, define-se o intervalo para repetir o exame, conforme o seu risco.
E se eu não tenho sintomas?
É justamente por isso que o rastreamento existe. O câncer de próstata não dá sintomas: em fase inicial ele é silencioso, e os sinais só costumam aparecer quando a doença já está muito avançada. Os sintomas urinários do dia a dia, como levantar à noite para urinar, são muito mais comuns na próstata aumentada benigna. Para entender melhor, leia: Sintomas do câncer de próstata: por que ele quase não dá sinais e quando eles aparecem.
Perguntas Frequentes sobre o PSA e o rastreamento da próstata
Com quantos anos devo fazer o primeiro PSA?
Para a maioria dos homens, a conversa com o urologista deve começar aos 50 anos, mesmo sem sintomas. Quem é afrodescendente, tem histórico familiar de câncer de próstata ou é portador de mutação patogênica no gene BRCA pode precisar começar mais cedo, entre 40 e 50 anos, segundo o posicionamento das sociedades brasileiras de 2023. A decisão final é sempre individualizada.
Preciso fazer o toque retal junto com o PSA?
As diretrizes admitem o uso do toque retal junto com o PSA para estimar o risco de um câncer clinicamente significativo. A indicação é individualizada e deve ser discutida com o seu urologista.
Meu PSA veio alterado. O que fazer?
Sem pânico: PSA alterado não significa câncer. Infecção urinária, prostatite, próstata aumentada, ejaculação ou exercício intenso nos dias anteriores ao exame também podem elevar o PSA. O passo seguinte é procurar o urologista, que poderá repetir o exame em condições adequadas e, se necessário, pedir ressonância magnética da próstata.
A ressonância substitui a biópsia?
Não. A ressonância ajuda a decidir se a biópsia é necessária e para onde direcioná-la, reduzindo punções desnecessárias. O diagnóstico de câncer só é confirmado pela biópsia.
De quanto em quanto tempo devo repetir o PSA?
Depende do valor do PSA e do seu risco. Para pessoas de 50 a 69 anos, a diretriz americana (AUA/SUO) recomenda oferecer o rastreamento regular a cada 2 a 4 anos. A diretriz europeia sugere uma estratégia adaptada ao risco, com intervalo de 2 anos para quem já tem risco aumentado. Quem tem PSA mais alto costuma ser acompanhado em intervalos menores.
O rastreamento com PSA tem algum risco?
Sim. O principal é o sobrediagnóstico: encontrar tumores de crescimento lento que nunca causariam problemas e, com isso, gerar biópsias e tratamentos desnecessários. É por isso que o rastreamento deve ser uma decisão compartilhada e que a ressonância antes da biópsia ganhou tanto espaço.
Referências
Lin DW, et al. Updates to Early Detection of Prostate Cancer: AUA/SUO Guideline (2026). J Urol. 2026;215(5):491-501. Disponível em: doi.org/10.1097/JU.0000000000004995
Hugosson J, et al. Results after Four Years of Screening for Prostate Cancer with PSA and MRI (Göteborg-2). N Engl J Med. 2024;391(12):1083-1095. Disponível em: doi.org/10.1056/NEJMoa2406050
Möller F, et al. The role of PSA density in the follow up of men with a negative MRI in the Göteborg-2 trial. BJU Int. 2026. Disponível em: doi.org/10.1111/bju.70450
European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Prostate Cancer (2026). Disponível em: uroweb.org/guidelines
SBU, SBOC e SBRT. Posicionamento sobre o rastreamento do câncer de próstata (2023). Disponível em: sbradioterapia.com.br
Ministério da Saúde / INCA. Nota técnica sobre o não rastreamento populacional do câncer de próstata (2023). Disponível em: gov.br/inca
Leia também
Dr. Rafael Viterbo
Urologista | Uro-oncologia
Av. Rio Branco, 185 - 428 - Centro, Rio de Janeiro




Comentários