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Bloqueio hormonal no câncer de próstata: efeitos colaterais e como lidar com eles

há 4 horas
5 min de leitura

Quando o urologista ou o oncologista fala em “bloqueio hormonal”, muitos pacientes e familiares se assustam. É um tratamento importante, que pode controlar o câncer de próstata por anos, mas que também provoca efeitos no corpo que ninguém deveria enfrentar sem orientação. A boa notícia é que boa parte deles pode ser prevenida ou amenizada.


Neste artigo, explico o que é o bloqueio hormonal, quando ele é indicado, quais são os efeitos colaterais mais comuns e o que pode ser feito para cuidar melhor de você durante o tratamento.


O que é o bloqueio hormonal

O câncer de próstata depende, na maioria dos casos, de hormônios masculinos — principalmente a testosterona — para crescer. A terapia de privação androgênica (ADT), conhecida como bloqueio hormonal, reduz a testosterona a níveis muito baixos, o que faz o tumor diminuir ou parar de crescer. Não é quimioterapia.


O bloqueio pode ser feito com injeções periódicas (como a leuprorrelina e a goserelina, que são agonistas do GnRH, ou o degarelix, um antagonista do GnRH), com comprimidos de antiandrogênios ou, em casos selecionados, com a retirada cirúrgica dos testículos (orquiectomia). Em muitos pacientes, o bloqueio é combinado com medicamentos de nova geração: a abiraterona, que bloqueia a produção de hormônios, e a enzalutamida, a apalutamida e a darolutamida, que bloqueiam o receptor de androgênio. Na doença metastática hormônio-sensível, a diretriz europeia recomenda combinar o bloqueio com abiraterona, apalutamida ou enzalutamida em pacientes aptos ao tratamento.


Quando ele é indicado

O bloqueio hormonal é a base do tratamento do câncer de próstata avançado ou metastático. Também é usado, por tempo limitado, junto com a radioterapia em tumores localizados de maior risco (veja câncer de próstata de alto risco), em estratégias combinadas como a testada no estudo PROTEUS e em casos selecionados de PSA subindo depois da cirurgia, associado à radioterapia de resgate.


A duração varia conforme o caso. Com a radioterapia, a diretriz europeia (EAU) indica bloqueio de curta duração (4 a 6 meses) nos tumores de risco intermediário desfavorável e de longa duração (2 a 3 anos) nos tumores localizados de alto risco. Como os efeitos dependem muito do tempo de uso, a melhor forma de prevenir efeitos colaterais é usar o bloqueio somente quando ele for realmente necessário.


Quais são os efeitos colaterais mais comuns

Como a testosterona influencia vários órgãos, a sua queda provoca efeitos em diferentes sistemas. Nem todo paciente tem todos eles, e a intensidade varia bastante de pessoa para pessoa.


Fogachos. As ondas de calor, semelhantes às da menopausa, costumam ser o efeito mais incômodo.

Libido e ereção. Queda do desejo sexual, disfunção erétil e redução do volume dos testículos.

Fadiga e mudanças no corpo. Cansaço, perda de massa muscular e aumento da gordura corporal.

Ossos. Aceleração da perda de massa óssea, com maior risco de osteoporose e fraturas.

Metabolismo e coração. Resistência à insulina, alterações do colesterol e maior risco de diabetes. Estudos observacionais sugerem também aumento de eventos cardiovasculares, embora o impacto sobre a mortalidade por doença cardíaca seja menos claro.

Mamas e sangue. Aumento e sensibilidade das mamas (ginecomastia) e anemia.

Humor e concentração. Alterações do humor e da cognição podem aparecer.


Como lidar: o que a evidência mostra

Exercício físico. A diretriz europeia recomenda oferecer a quem faz bloqueio hormonal 12 semanas de exercício aeróbico e de força combinados, supervisionados por profissional habilitado. Programas desse tipo melhoram a fadiga, a função sexual e a cognição.

Saúde dos ossos. Densitometria óssea ao iniciar um bloqueio prolongado e, para quem tem osteoporose (T-score abaixo de -2,5) ou outro fator de risco para fratura, medicamentos que reduzem a perda óssea (bisfosfonatos ou denosumabe), sempre com cálcio e vitamina D.

Fogachos. Há opções com e sem hormônios, como venlafaxina, gabapentina, medroxiprogesterona e ciproterona. A escolha depende de cada paciente.

Estilo de vida, metabolismo e coração. Manter peso e alimentação saudáveis, parar de fumar, limitar o álcool a até duas doses por dia e fazer rastreamento anual de diabetes e colesterol alto, como orienta a EAU. Quem já tem doença cardíaca deve manter acompanhamento cardiológico.

Ginecomastia. Pode ser prevenida ou tratada, em casos selecionados, com tamoxifeno ou com radioterapia preventiva das mamas.

Sexualidade e emocional. A queda da libido e da ereção é esperada, mas há o que fazer: a intimidade não se resume à penetração, e conversar com o parceiro ou a parceira, com o urologista e, se necessário, com psicólogo ou terapeuta sexual faz parte do tratamento.

Pausas no tratamento. Em situações selecionadas, o médico pode discutir estratégias de bloqueio intermitente. Essa decisão depende do estágio da doença: na doença metastática, o bloqueio costuma ser contínuo.


A testosterona volta depois?

Quando o bloqueio é temporário, a testosterona costuma se recuperar ao longo de meses após a suspensão. A velocidade e a extensão dessa recuperação variam com a idade e com o tempo de tratamento, e nem sempre ela retorna ao nível anterior.


Nunca suspenda por conta própria

Se os efeitos colaterais estão pesando, converse com o seu médico antes de interromper ou alterar qualquer dose. Interromper por conta própria pode permitir que o câncer volte a crescer, e quase sempre há ajustes e tratamentos de suporte que melhoram a qualidade de vida.


Perguntas Frequentes sobre o bloqueio hormonal

O bloqueio hormonal cura o câncer de próstata?

Na doença avançada ou metastática, o bloqueio hormonal geralmente controla o câncer por um período, sem curá-lo isoladamente. Em tumores localizados de maior risco, ele é usado por tempo determinado junto com a radioterapia, como parte de um tratamento com intenção curativa.

Bloqueio hormonal é o mesmo que quimioterapia?

Não. O bloqueio hormonal reduz a testosterona, da qual o câncer de próstata costuma depender para crescer. A quimioterapia atua de outra forma, destruindo células que se dividem rapidamente, e é indicada em situações específicas.

Por quanto tempo é preciso fazer o bloqueio hormonal?

Depende do caso. Quando associado à radioterapia, a diretriz europeia (EAU) indica de 4 a 6 meses em tumores de risco intermediário desfavorável e de 2 a 3 anos em tumores localizados de alto risco. Na doença metastática, o bloqueio costuma ser contínuo, muitas vezes combinado com outros medicamentos. A duração deve ser definida pelo seu médico.

Os fogachos passam?

Podem diminuir com o tempo e existem medicamentos que ajudam, como venlafaxina, gabapentina, medroxiprogesterona e ciproterona. Quando o bloqueio é suspenso e a testosterona se recupera, os fogachos tendem a melhorar.

Posso ter vida sexual durante o bloqueio hormonal?

A libido e a ereção costumam diminuir, mas a intimidade continua possível e importante. Conversar com o parceiro ou a parceira e com o médico faz muita diferença, e há recursos que podem ser avaliados caso a caso.

O bloqueio hormonal aumenta o risco de problemas no coração?

Estudos observacionais sugerem aumento de eventos cardiovasculares em alguns pacientes, embora o efeito sobre a mortalidade cardiovascular seja menos claro. Por isso, vale controlar pressão, colesterol, glicemia e peso, e manter acompanhamento médico, principalmente se já há doença cardíaca.


Referências

European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Prostate Cancer (2026). Disponível em: uroweb.org/guidelines

Nguyen PL, et al. Adverse effects of androgen deprivation therapy and strategies to mitigate them. Eur Urol. 2015;67(5):825-836. Disponível em: doi.org/10.1016/j.eururo.2014.07.010

Ahmadi H, Daneshmand S. Androgen deprivation therapy: evidence-based management of side effects. BJU Int. 2013;111(4):543-548. Disponível em: doi.org/10.1111/j.1464-410X.2012.11774.x

Allan CA, et al. Androgen deprivation therapy complications. Endocr Relat Cancer. 2014;21(4):T119-T129. Disponível em: doi.org/10.1530/ERC-13-0467


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Dr. Rafael Viterbo

Urologista | Uro-oncologia


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