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Disfunção erétil após a cirurgia de próstata: o que esperar e como tratar

19 de jul.
5 min de leitura

Para muitos homens, a maior preocupação depois do diagnóstico de câncer de próstata não é a cirurgia em si, mas o que vem depois: “vou continuar tendo uma vida sexual?”. A disfunção erétil é um dos efeitos mais temidos da prostatectomia radical (a retirada completa da próstata) — e também um dos mais cercados de desinformação. A boa notícia é que, na maioria dos casos, a função sexual pode ser recuperada ou tratada com eficácia. Aqui você entende por que isso acontece, o que esperar em cada fase e quais são as opções para retomar a intimidade com segurança.

Por que a cirurgia de próstata afeta a ereção

A ereção depende de dois feixes de nervos muito delicados — os feixes neurovasculares — que correm colados às laterais da próstata. São eles que disparam o estímulo que enche o pênis de sangue. Como esses nervos estão praticamente “grudados” na cápsula da próstata, a retirada da glândula pode estirá-los, inflamá-los ou, quando o tumor exige, obrigar à sua remoção. O resultado é uma dificuldade — muitas vezes temporária — de obter ereções, mesmo quando o desejo e o orgasmo continuam presentes.

Vale um esclarecimento importante: após a prostatectomia radical, o orgasmo passa a ser “seco”, sem ejaculação, porque a próstata e as vesículas seminais são removidas. Isso não impede o prazer nem o clímax, mas significa que a fertilidade natural é perdida — por isso, homens que ainda desejam ter filhos devem conversar sobre o congelamento de sêmen antes da cirurgia.

É definitivo? O que esperar da recuperação

Na maioria das vezes, não. A queda da função erétil logo após a cirurgia costuma ser fruto de um “choque” temporário dos nervos (neuropraxia), que vão se recuperando aos poucos. Esse processo é lento e pode levar de 12 a 24 meses. É comum a ereção voltar de forma gradual — primeiro parcial, depois mais firme — e a resposta aos medicamentos melhorar com o tempo.

Alguns fatores pesam muito no prognóstico: a idade, a qualidade da ereção antes da cirurgia, a presença de diabetes ou de doenças cardiovasculares e, principalmente, se foi possível preservar um ou ambos os feixes de nervos. Em homens mais jovens, com boa função prévia e preservação bilateral dos nervos, as taxas de recuperação de ereções suficientes para a relação chegam a 70–80% em um a dois anos.

A preservação dos nervos: por que ela é decisiva

Sempre que o tumor permite — ou seja, quando não há risco de deixar doença para trás — procuramos preservar os feixes neurovasculares. Essa técnica, chamada de cirurgia com preservação de nervos, é o fator que mais influencia a volta da ereção. A cirurgia robótica, com visão ampliada em três dimensões e instrumentos de altíssima precisão, ajuda a dissecar esses nervos com mais delicadeza. Mas existe uma regra de ouro: o controle do câncer vem sempre em primeiro lugar. Em tumores mais agressivos, preservar os nervos pode não ser seguro, e essa decisão é individualizada para cada paciente.

Reabilitação peniana: começar cedo faz diferença

Assim como um músculo que fica muito tempo parado, o tecido erétil precisa de oxigenação regular para não sofrer fibrose (endurecimento) e encurtamento. A reabilitação peniana reúne estratégias para manter o pênis saudável enquanto os nervos se recuperam. Costuma ser iniciada nas primeiras semanas após a retirada da sonda e pode combinar medicamentos e dispositivos.

É importante ter expectativas realistas: as diretrizes internacionais reconhecem que a reabilitação peniana ajuda, mas ainda não há consenso sobre o esquema “perfeito” — qual remédio, dose ou frequência. Por isso o plano é sempre personalizado, e a constância no tratamento faz toda a diferença no resultado.

As opções de tratamento

Hoje contamos com um arsenal eficaz, que vai do mais simples ao mais definitivo:

  • Medicamentos orais (inibidores da PDE5): sildenafila, tadalafila e vardenafila são a primeira linha. Aumentam o fluxo de sangue para o pênis e funcionam melhor quando ao menos um feixe de nervos foi preservado.

  • Bomba de vácuo: cria a ereção de forma mecânica e ajuda a oxigenar o tecido; é útil tanto na reabilitação quanto na relação.

  • Injeções intracavernosas: pequenas aplicações de medicamento diretamente no pênis, muito eficazes quando os comprimidos não são suficientes.

  • Alprostadil intrauretral: alternativa às injeções, aplicada no canal da uretra.

  • Prótese peniana (implante): solução definitiva e com altíssima satisfação para quem não responde às demais opções, devolvendo a capacidade de ereção de forma previsível.

O lado emocional (e por que a parceria importa)

Disfunção erétil não é só uma questão mecânica. Medo, ansiedade de desempenho e mudanças na autoimagem podem, sozinhos, atrapalhar a recuperação. Incluir a parceira ou o parceiro na conversa, manter a intimidade mesmo sem penetração e, quando necessário, contar com apoio psicológico ou sexológico são partes legítimas do tratamento. Recuperar a vida sexual costuma ser um processo — não um interruptor que liga de uma vez.

Quando procurar ajuda

Não espere “ver se melhora sozinho” para só então buscar orientação. Quanto mais cedo iniciamos a reabilitação e ajustamos o tratamento, melhores são os resultados. Se você fez ou vai fazer uma prostatectomia, converse abertamente com seu urologista sobre função sexual, antes e depois da cirurgia. Esse é um assunto médico como qualquer outro — e há muito o que fazer.

Referências

European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health. Disponível em: uroweb.org/guidelines

American Urological Association (AUA). Erectile Dysfunction: AUA Guideline. Disponível em: auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines

Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Disponível em: portaldaurologia.org.br

Perguntas Frequentes

A impotência após a cirurgia de próstata é para sempre?

Na maioria dos casos, não. A ereção costuma se recuperar de forma gradual ao longo de 12 a 24 meses, à medida que os nervos se restabelecem. E, mesmo quando a recuperação espontânea é incompleta, existem tratamentos eficazes — de comprimidos à prótese peniana — que permitem retomar a vida sexual.

Quando devo começar a reabilitação peniana?

Em geral nas primeiras semanas após a cirurgia, logo depois da retirada da sonda, conforme a orientação do seu urologista. Começar cedo ajuda a preservar a saúde do tecido erétil enquanto os nervos se recuperam.

O Viagra (sildenafila) funciona depois da prostatectomia?

Pode funcionar, especialmente quando ao menos um feixe de nervos foi preservado, e a resposta tende a melhorar com o tempo. Se os comprimidos não bastarem, há opções como a bomba de vácuo, as injeções intracavernosas e a prótese peniana.

A cirurgia robótica preserva melhor a ereção?

A técnica de preservação dos nervos é o fator mais importante, e a plataforma robótica ajuda a realizá-la com grande precisão. Ainda assim, a possibilidade de preservar os nervos depende das características do tumor: o controle do câncer sempre vem primeiro.

Vou ter orgasmo mesmo sem ereção?

Sim. O orgasmo depende de nervos diferentes dos que controlam a ereção, e a maioria dos homens mantém a capacidade de chegar ao clímax — ainda que sem ereção rígida e sem ejaculação (o chamado orgasmo seco), já que a próstata foi removida.

Vou perder tamanho do pênis?

Pode haver um leve encurtamento nos primeiros meses, ligado à falta de ereções e à fibrose do tecido. É justamente isso que a reabilitação peniana busca prevenir, mantendo o pênis oxigenado e saudável durante a recuperação.

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Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individual. Dr. Rafael Viterbo é urologista com atuação em uro-oncologia e cirurgia robótica, no Centro do Rio de Janeiro (Av. Rio Branco, 185, sala 428). Para agendar uma consulta: (21) 97613-5662.

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