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Lutécio-177 PSMA no câncer de próstata avançado: como funciona o tratamento

há 10 minutos
7 min de leitura

Se você já fez um PET-PSMA, sabe que esse exame consegue encontrar o câncer de próstata onde outros exames não enxergam. O lutécio-177 PSMA parte exatamente do mesmo princípio — mas com um objetivo diferente: em vez de apenas localizar o tumor, ele leva radiação para dentro dele. É um dos avanços mais relevantes dos últimos anos no câncer de próstata avançado, e este texto explica, em linguagem clara, o que ele faz, para quem é indicado e o que a evidência realmente mostra.

O que é o lutécio-177 PSMA

O nome completo do medicamento é lutécio-177 vipivotida tetraxetana. Ele pertence a uma classe chamada terapia radioligante, que reúne duas partes em uma única molécula. A primeira é o ligante: uma espécie de chave desenhada para encaixar no PSMA, uma proteína presente em grande quantidade na superfície das células do câncer de próstata. A segunda é o radioisótopo — o lutécio-177 —, que emite radiação de alcance muito curto.

Aplicado na veia, o medicamento circula pelo corpo e se prende às células que expressam PSMA. A radiação age então num raio de menos de um milímetro: o suficiente para danificar o DNA da célula tumoral e, em boa medida, poupar o tecido saudável ao redor. É por isso que se fala em radiação dirigida. O alvo não é uma região do corpo, como na radioterapia externa, e sim a própria célula do câncer — onde quer que ela esteja.

Por que o PET-PSMA vem antes do tratamento

O tratamento só funciona se o tumor de fato expressar PSMA. Por isso, nenhum paciente recebe lutécio-177 sem antes fazer um PET-PSMA. O exame funciona como um teste de compatibilidade: se as lesões acendem na imagem, a chave encaixa na fechadura e o tratamento tem alvo. Se as lesões não captam, o medicamento não teria onde se prender — e a indicação cai por terra.

Nos estudos clínicos essa seleção foi rigorosa. Exigia-se pelo menos uma lesão claramente positiva no PET-PSMA e nenhuma lesão significativa que fosse negativa. Na prática, é esse exame que separa quem pode se beneficiar de quem não vai responder.

Para quem o tratamento é indicado

O lutécio-177 PSMA não é um tratamento para câncer de próstata localizado, nem uma alternativa à cirurgia ou à radioterapia no início da doença. Ele foi estudado e aprovado para uma situação bem definida: o câncer de próstata metastático resistente à castração, ou seja, a doença que já se espalhou e voltou a progredir apesar do bloqueio hormonal.

Dentro desse cenário, a indicação mais consolidada é para homens que já passaram por um bloqueador da via do receptor androgênico — como abiraterona ou enzalutamida — e por quimioterapia com taxano, como o docetaxel, e que tenham PET-PSMA positivo. Existe também evidência mais recente em homens que ainda não fizeram quimioterapia, e voltaremos a ela adiante.

Em qualquer caso, a decisão é individual. Além do PET-PSMA, pesam a função da medula óssea, a função dos rins, o estado geral e quais tratamentos já foram usados antes.

O que a evidência mostra

O estudo VISION, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, foi o que mudou a prática. Incluiu 831 homens com câncer metastático resistente à castração, PET-PSMA positivo, já tratados com bloqueador androgênico de nova geração e com um ou dois esquemas de quimioterapia. Os participantes foram sorteados para receber lutécio-177 somado ao melhor tratamento padrão, ou apenas o tratamento padrão.

Quem recebeu lutécio-177 viveu, em mediana, 15,3 meses contra 11,3 meses — uma redução de 38% no risco de morte. O tempo até a doença progredir nas imagens passou de 3,4 para 8,7 meses. Efeitos adversos graves foram mais frequentes no grupo do lutécio (52,7% contra 38,0%), mas a qualidade de vida relatada pelos próprios pacientes não piorou.

Já o estudo PSMAfore, publicado no Lancet em 2024, testou o medicamento mais cedo na sequência: em 468 homens que ainda não tinham feito quimioterapia e que haviam progredido depois de um primeiro bloqueador hormonal de nova geração. A comparação foi com a simples troca desse bloqueador por outro. O tempo até a progressão nas imagens foi de 11,6 meses com lutécio-177 contra 5,6 meses com a troca de hormonal, e os efeitos adversos graves foram menos frequentes no grupo do lutécio (36% contra 48%).

Aqui cabe uma ressalva importante e honesta: nesse estudo, a maior parte dos homens do grupo de comparação passou a receber lutécio-177 quando a doença progrediu, o que dificulta medir o efeito sobre o tempo de vida — e o seguimento de sobrevida global ainda está em andamento. Em outras palavras, nesse cenário mais precoce o ganho em controle da doença está bem estabelecido; o ganho em sobrevida ainda não.

Uma análise complementar do PSMAfore, publicada em 2025, mostrou que o lutécio-177 adiou a piora da qualidade de vida (mediana de 7,5 contra 4,3 meses) e reduziu de forma expressiva o risco de eventos ósseos sintomáticos, como fraturas ou necessidade de radioterapia para dor. Para quem convive com metástases ósseas, esse é um desfecho que se sente no dia a dia.

Vale registrar também que o VISION recebeu críticas legítimas na literatura especializada: o braço de comparação tinha opções de tratamento limitadas e houve uma taxa alta de abandono entre os pacientes que não receberam o medicamento. Isso não invalida o resultado, mas ajuda a interpretá-lo na medida certa.

Como é o tratamento na prática

A aplicação é intravenosa e acontece em um serviço de medicina nuclear, em sessões chamadas ciclos. O intervalo entre elas é de cerca de seis semanas, e o total costuma variar de quatro a seis ciclos.

A sessão em si é rápida e não exige anestesia. Na maioria dos serviços o procedimento é ambulatorial, embora isso dependa das normas de radioproteção de cada instituição. Entre os ciclos são feitos exames de sangue para acompanhar a medula óssea, os rins e o PSA, além de exames de imagem periódicos para avaliar a resposta.

Efeitos colaterais e cuidados com a radiação

Os efeitos mais comuns são boca seca, cansaço, náusea e queda nas contagens do sangue — sobretudo anemia e redução das plaquetas. A boca seca acontece porque as glândulas salivares também expressam PSMA em alguma medida e acabam recebendo parte da radiação; em geral é leve a moderada.

Nos dias seguintes a cada aplicação, parte da radiação é eliminada pela urina. Por isso o serviço de medicina nuclear orienta medidas simples e temporárias: beber bastante líquido, urinar sentado e dar descarga duas vezes, lavar bem as mãos e manter, por alguns dias, uma distância maior de crianças pequenas e gestantes. São recomendações de curta duração, e a equipe entrega por escrito o prazo exato de cada uma.

O que o lutécio-177 PSMA não é

É importante ser direto: não se trata de um tratamento curativo. O objetivo é controlar a doença, prolongar o tempo até a progressão, retardar sintomas e, no cenário estudado no VISION, prolongar a vida. Ele também não substitui universalmente a quimioterapia nem o bloqueio hormonal — é mais uma peça na sequência de tratamentos, e a ordem em que essas peças entram precisa ser decidida caso a caso, em conjunto entre urologista e oncologista.

Uma queda expressiva do PSA depois dos primeiros ciclos é um bom sinal, mas não significa cura. A avaliação de resposta sempre combina três coisas: PSA, exames de imagem e como você está se sentindo.

Perguntas Frequentes

O lutécio-177 PSMA é um tipo de quimioterapia?

Não. A quimioterapia age sobre células que se multiplicam rápido no corpo todo. O lutécio-177 é uma terapia radioligante: ele se prende especificamente às células que expressam PSMA e entrega ali uma radiação de alcance muito curto. São mecanismos diferentes, com perfis de efeitos colaterais diferentes.

Quantas sessões são necessárias?

Em geral, de quatro a seis ciclos, com intervalo de aproximadamente seis semanas entre eles. O número final depende da resposta ao tratamento e da tolerância de cada paciente.

Preciso ficar internado?

Na maioria dos serviços, não — a aplicação é ambulatorial e você vai para casa no mesmo dia, seguindo as orientações de radioproteção. Ainda assim, a rotina varia conforme as normas de cada instituição de medicina nuclear.

Todo homem com câncer de próstata pode fazer?

Não. O tratamento é indicado para doença metastática resistente à castração, com PET-PSMA positivo e depois de determinados tratamentos prévios. Homens com câncer localizado, ou com PET-PSMA sem captação nas lesões, não são candidatos.

Eu fico radioativo? Preciso me afastar da minha família?

Por alguns dias após cada aplicação você elimina uma parte da radiação, principalmente pela urina. Por isso são recomendadas medidas simples e temporárias de higiene e de distância de crianças pequenas e gestantes. Não é necessário isolamento prolongado, e a equipe informa por escrito o tempo exato de cada cuidado.

Se o meu PSA cair muito, o câncer foi curado?

Uma queda importante do PSA é um sinal favorável de que o tratamento está agindo, mas não significa cura. O acompanhamento continua com exames de imagem, exames laboratoriais e avaliação dos sintomas.

Leia também

Referências

Sartor O, de Bono J, Chi KN, et al. Lutetium-177-PSMA-617 for Metastatic Castration-Resistant Prostate Cancer (estudo VISION). N Engl J Med. 2021;385(12):1091-1103. Disponível em: doi.org/10.1056/NEJMoa2107322

Morris MJ, Castellano D, Herrmann K, et al. 177Lu-PSMA-617 versus a change of androgen receptor pathway inhibitor therapy for taxane-naive patients with progressive metastatic castration-resistant prostate cancer (estudo PSMAfore). Lancet. 2024;404(10459):1227-1239. Disponível em: doi.org/10.1016/S0140-6736(24)01653-2

Fizazi K, Morris MJ, Shore ND, et al. Health-related quality of life, pain, and symptomatic skeletal events with 177Lu-PSMA-617 (PSMAfore). Lancet Oncol. 2025;26(7):948-959. Disponível em: doi.org/10.1016/S1470-2045(25)00189-5

Olivier T, Powell K, Prasad V. Lutetium-177-PSMA-617 in Metastatic Castration-resistant Prostate Cancer: Limitations of the VISION Trial. Eur Urol. 2023;84(1):4-6. Disponível em: doi.org/10.1016/j.eururo.2022.08.022

European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Prostate Cancer. Disponível em: uroweb.org/guidelines

Se você ou alguém da sua família está em tratamento para câncer de próstata avançado e quer entender se o lutécio-177 PSMA faz sentido nesse momento da doença, uma consulta com avaliação dos exames é o caminho para essa resposta.

Dr. Rafael Viterbo

Urologista | Uro-oncologia

📍 Av. Rio Branco, 185 - 428 - Centro, Rio de Janeiro

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