Câncer de bexiga invasivo: o que muda com o estudo EV-304 (Padcev + Keytruda)
Atualizado: há 4 dias
Por mais de trinta anos, o tratamento padrão do câncer de bexiga músculo-invasivo em pacientes aptos à quimioterapia foi o mesmo: cisplatina com gencitabina antes da cistectomia (a cirurgia de retirada da bexiga). Em 2026, isso mudou.
O estudo EV-304, também chamado KEYNOTE-B15, publicado no New England Journal of Medicine e apresentado no congresso ASCO GU 2026, mostrou que a combinação de enfortumabe vedotina (Padcev) com pembrolizumabe (Keytruda), aplicada antes e depois da cirurgia, supera a quimioterapia clássica. Em julho de 2026, o FDA aprovou o esquema para todos os pacientes candidatos à cistectomia.
O que o estudo testou
O EV-304 acompanhou 808 pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo em 158 centros, todos aptos a receber cisplatina e candidatos à cirurgia. Eles foram sorteados para um de dois caminhos:
Esquema novo: 4 ciclos de Padcev + Keytruda antes da cistectomia, seguidos de mais 5 ciclos de Padcev e 13 de Keytruda depois da cirurgia.
Esquema tradicional: 4 ciclos de cisplatina com gencitabina antes da cistectomia.
O Padcev não é uma quimioterapia comum: ele é um anticorpo conjugado, que funciona como um "correio" — encontra uma proteína chamada nectina-4 na superfície da célula tumoral e entrega a droga diretamente ali. O Keytruda é uma imunoterapia, que ajuda o sistema de defesa do próprio paciente a reconhecer o tumor.
Os resultados
Com acompanhamento médio de 33,6 meses, o esquema novo venceu em todos os desfechos principais:
Sobrevida livre de eventos em 2 anos: 79,4% contra 66,2% — uma redução de 47% no risco de recidiva, progressão ou morte.
Sobrevida global em 2 anos: 86,9% contra 81,3% — 35% menos risco de morte.
Resposta patológica completa: 55,8% contra 32,5%. Ou seja, em mais da metade dos pacientes, o patologista não encontrou nenhum tumor residual na bexiga removida.
Um dado importante para quem teme atrasar a cirurgia: a proporção de pacientes que efetivamente chegaram à cistectomia foi semelhante nos dois grupos (86,7% contra 89,6%), e os atrasos cirúrgicos também foram parecidos.
O outro lado: mais efeitos colaterais
Um resultado melhor não vem de graça. Efeitos colaterais graves foram mais frequentes com o esquema novo: 75,7% contra 67,2%, e 35,2% dos pacientes precisaram interromper pelo menos uma das medicações por toxicidade, contra 11,1% no grupo da quimioterapia.
O perfil de efeitos também é diferente. Com Padcev e Keytruda, os mais comuns foram coceira na pele e diarreia; com a quimioterapia, anemia e queda dos glóbulos brancos. O Padcev exige atenção especial a reações de pele, alterações da glicose e neuropatia periférica (dormência nas mãos e nos pés). São efeitos manejáveis, mas exigem acompanhamento próximo.
E no Brasil?
A ANVISA aprovou o esquema perioperatório de Padcev com Keytruda em junho de 2026 — mas, até o momento, especificamente para pacientes que não podem receber cisplatina, com base em um estudo irmão, o EV-303 (KEYNOTE-905). A ampliação para pacientes aptos à cisplatina, que é justamente o que o EV-304 demonstrou, foi aprovada pelo FDA em julho de 2026 e ainda aguarda avaliação por aqui.
Na prática, isso significa que a indicação disponível no Brasil depende do perfil de cada paciente e pode mudar nos próximos meses. Cobertura por plano de saúde e acesso pelo SUS são discussões à parte, que seguem cronogramas próprios.
O que isso muda para você
Se você ou alguém da sua família recebeu o diagnóstico de câncer de bexiga músculo-invasivo, vale levar duas perguntas à consulta: se há indicação de tratamento antes da cirurgia, e qual esquema é o mais adequado ao seu caso — considerando função renal, condições clínicas e o que está disponível no seu contexto.
A decisão nunca é automática. O ganho demonstrado pelo EV-304 é real e expressivo, mas vem com mais efeitos colaterais, e cada paciente precisa dessa conversa individualizada antes de escolher o caminho.
Referências
Galsky MD, et al. Enfortumab Vedotin and Pembrolizumab in Cisplatin-Eligible Bladder Cancer. New England Journal of Medicine, 2026. Disponível em: nejm.org
U.S. Food and Drug Administration. FDA approves pembrolizumab with enfortumab vedotin-ejfv for muscle invasive bladder cancer, 10 jul. 2026. Disponível em: fda.gov
European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Muscle-invasive and Metastatic Bladder Cancer. Disponível em: uroweb.org/guidelines
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Dr. Rafael Viterbo · Urologista · CRM-RJ 521128426 · RQE 56547
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