BCG e quimioterapia intravesical no câncer de bexiga: para que servem?
- Dr. Rafael Viterbo

- 18 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 10 de mai.
O câncer de bexiga não músculo-invasivo (NMIBC) — que representa cerca de 75% dos casos ao diagnóstico — tem uma característica peculiar: alta taxa de recidiva após a ressecção endoscópica. Para prevenir essa recidiva e evitar a progressão para doença invasiva, o tratamento intravesical com BCG ou quimioterápicos é a principal estratégia adjuvante disponível.
O que é o Tratamento Intravesical?
No tratamento intravesical, o agente terapêutico — seja um imunoterápico como o BCG ou um quimioterápico como a mitomicina C — é instilado diretamente dentro da bexiga por meio de uma sonda uretral. O medicamento permanece em contato com a mucosa vesical por um período determinado (geralmente 1 a 2 horas) e depois é eliminado pela urina.
Essa via de administração tem a vantagem de concentrar o efeito terapêutico na bexiga, com absorção sistêmica mínima e, consequentemente, efeitos colaterais gerais muito menores do que a quimioterapia sistêmica intravenosa.
BCG Intravesical: Imunoterapia Local
O Bacilo Calmette-Guérin (BCG) é uma cepa atenuada de Mycobacterium bovis, originalmente desenvolvida como vacina contra tuberculose. Em urologia oncológica, ele é utilizado como imunoterápico intravesical: ao ser instilado na bexiga, induz uma resposta imune local vigorosa contra as células tumorais residuais.
O BCG é o agente intravesical mais eficaz disponível. Suas indicações incluem:
Carcinoma in situ (CIS): tumor de alto grau, plano, confinado à mucosa. O BCG é o tratamento de escolha, com taxa de resposta completa de 60-70%.
Tumores T1G3/G4 (alto grau que invade a lâmina própria): risco significativo de progressão para músculo sem tratamento adjuvante.
Tumores Ta de alto risco (múltiplos, recidivantes, > 3 cm): prevenção de recidiva e progressão.
Protocolo de BCG: Indução e Manutenção
O protocolo padrão de BCG (Lamm, validado em múltiplos estudos randomizados) consiste em:
Fase de indução: 6 instilações semanais consecutivas, iniciadas 2-4 semanas após a RTUV (ressecção transuretral de bexiga). O objetivo é eliminar células tumorais residuais e estimular a resposta imune local.
Fase de manutenção: 3 instilações semanais nos meses 3, 6, 12, 18, 24, 30 e 36 (protocolo SWOG) para pacientes de alto risco. A manutenção por 1-3 anos reduz significativamente as taxas de recidiva e progressão.
Efeitos colaterais do BCG: os mais frequentes são sintomas irritativos vesicais (urgência, frequência, disúria) nas 48-72h após cada instilação. Febre baixa e mal-estar passageiros são comuns. Efeitos sistêmicos graves (sepse por BCG) são raros (< 1%) mas requerem tratamento imediato com tuberculostáticos.
Quimioterapia Intravesical: Mitomicina C e Gemcitabina
Para tumores de baixo risco, a quimioterapia intravesical com mitomicina C ou epirrubicina é preferida ao BCG por apresentar menor toxicidade com eficácia equivalente nesse subgrupo.
A instilação única de mitomicina C imediatamente após a RTUV (nas primeiras 6 horas) é recomendada pelas diretrizes EAU para todos os pacientes de baixo e risco intermediário, pois reduz a recidiva em 35-40% ao prevenir a reimplantação de células tumorais esfoliadas durante a cirurgia.
A gemcitabina intravesical é uma opção crescentemente utilizada em casos de falha ou intolerância ao BCG, com perfil de tolerância favorável. O esquema gembinado gemcitabina + docetaxel demonstrou resultados promissores em estudos de fase II para doença refratária ao BCG.
Falha ao BCG e Próximos Passos
Define-se falha ao BCG quando há recidiva de tumor de alto grau dentro de 6 meses da última instilação, ou progressão durante o tratamento. Nessa situação, a cistectomia radical (remoção da bexiga) é o tratamento padrão recomendado pelas diretrizes internacionais.
Em pacientes não candidatos à cirurgia, novas terapias estão disponíveis: o nadofaragene firadenovec (terapia gênica intravesical com adenovírus) foi aprovado pelo FDA em 2023 para CIS refratário ao BCG, com taxa de resposta completa de 51% em 3 meses. O pembrolizumabe sistêmico também tem aprovação nessa indicação.
Perguntas Frequentes sobre BCG e Quimioterapia Intravesical
O que é o BCG na bexiga?
O BCG (Bacillus Calmette-Guérin) é uma imunoterapia instilada diretamente na bexiga por sonda após a cirurgia de raspagem (RTU de bexiga). Ele estimula o sistema imune local a destruir células tumorais residuais e prevenir recidivas.
Para que serve a quimioterapia intravesical?
A quimioterapia intravesical (com mitomicina C ou epirrubicina) é instilada na bexiga para destruir células tumorais após a RTU. Reduz o risco de recidiva do câncer de bexiga não músculo-invasivo de baixo e médio risco.
Qual a diferença entre BCG e quimioterapia intravesical?
A quimioterapia age diretamente matando células tumorais, enquanto o BCG estimula o sistema imunológico a combater o tumor. O BCG é mais eficaz em tumores de alto risco, enquanto a quimioterapia é usada em tumores de baixo risco.
O BCG substitui a cirurgia no câncer de bexiga?
Não. O BCG é sempre usado após a cirurgia de raspagem (RTU de bexiga), nunca como substituto. Ele reduz as chances de o tumor voltar, mas a ressecção cirúrgica é sempre o primeiro passo do tratamento.
Quais são os efeitos colaterais do BCG?
Os efeitos mais comuns são irritação vesical, urgência urinária, aumento da frequência urinária e febre baixa nas primeiras horas. Efeitos sistêmicos graves são raros mas exigem suspensão imediata do tratamento e avaliação médica.
Quantas aplicações de BCG são necessárias?
O protocolo clássico consiste em 6 instilações semanais (indução), seguidas de manutenção por 1 a 3 anos com aplicações mensais ou trimestrais, dependendo do risco do tumor e da resposta ao tratamento.
Dr. Rafael Viterbo
Urologista | Uro-oncologia
Av. Rio Branco, 185 - 428 - Centro, Rio de Janeiro


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