PI-RADS na ressonância da próstata: o que significam as notas 1 a 5 do seu laudo
O laudo da ressonância da próstata chegou e, no meio de termos técnicos, aparece uma sigla: PI-RADS, seguida de um número de 1 a 5. É comum o paciente procurar o significado na internet antes mesmo da consulta e sair da busca assustado.
Neste texto, explico o que é o PI-RADS, o que cada nota quer dizer, qual é a chance real de câncer em cada uma e o que costuma acontecer depois. A nota é uma estimativa de risco e não um diagnóstico: quem confirma ou descarta o câncer é a biópsia.
O que é o PI-RADS?
PI-RADS é a sigla em inglês para Prostate Imaging Reporting and Data System, um sistema padronizado para descrever o que a ressonância magnética mostra na próstata. A versão atual é a 2.1, publicada por um grupo de especialistas europeus e americanos. Ele existe para que radiologistas de serviços diferentes usem a mesma linguagem e para que o urologista consiga decidir com mais segurança quem precisa de biópsia.
Cada área suspeita (lesão) recebe a sua própria nota. Por isso, o laudo pode trazer mais de uma lesão, cada uma com um PI-RADS diferente. A nota que mais pesa na decisão é a da lesão mais alta.
Como o radiologista chega à nota
A nota é atribuída combinando as sequências da ressonância. Na zona periférica, onde nasce a maioria dos tumores, pesa mais o mapa de difusão, que mostra regiões em que as células estão muito compactadas. Na zona de transição, a região central que cresce na próstata aumentada, pesa mais a sequência em T2, que mostra a anatomia. O contraste endovenoso entra como apoio em casos selecionados.
O que significa cada nota
PI-RADS 1 e 2: câncer clinicamente significativo muito improvável. Em uma metanálise de estudos que usaram a versão 2.1, a taxa de detecção ficou, em geral, abaixo de 10%.
PI-RADS 3: resultado intermediário, em que o radiologista não consegue dizer se a lesão é benigna ou não. Na mesma metanálise, a detecção de câncer clinicamente significativo ficou em torno de 16% a 20%.
PI-RADS 4: câncer clinicamente significativo provável. A detecção ficou em torno de 52% a 59%.
PI-RADS 5: câncer clinicamente significativo muito provável. A detecção ficou em torno de 85% a 89%.
Esses números são médias de vários estudos, e o intervalo de confiança de algumas categorias é amplo. Eles variam conforme o serviço, a experiência do radiologista e o perfil dos pacientes. Servem para dar uma ideia de ordem de grandeza e não para prever o resultado de uma pessoa em particular.
Câncer clinicamente significativo é aquele com características que justificam tratamento, em contraste com tumores de crescimento muito lento, que muitas vezes podem apenas ser acompanhados. Se quiser entender melhor essa distinção, veja o texto sobre estadiamento e Gleason, indicado ao final.
Por que a ressonância mudou o diagnóstico da próstata
Antes da ressonância, a biópsia era feita de forma sistemática, retirando fragmentos de pontos pré-definidos da próstata, sem saber onde estava a lesão. No estudo PRECISION, publicado no New England Journal of Medicine em 2018, homens com suspeita de câncer foram sorteados para ressonância seguida de biópsia dirigida ou para biópsia sistemática tradicional. O grupo da ressonância detectou mais câncer clinicamente significativo (38% contra 26%), diagnosticou menos tumores insignificantes (9% contra 22%) e cerca de 28% dos pacientes puderam evitar a biópsia por terem ressonância sem lesão suspeita.
Por esse motivo, as diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU) recomendam a ressonância antes da biópsia em homens com suspeita de câncer de próstata.
E se o meu laudo diz PI-RADS 3?
É a nota que mais gera dúvidas. A maioria das lesões PI-RADS 3 não é câncer clinicamente significativo, mas uma parte é. Por isso, a decisão entre biopsiar ou acompanhar costuma levar em conta o PSA, a densidade do PSA (o PSA dividido pelo volume da próstata), o histórico familiar, o toque retal, a idade e o desejo do paciente. Em alguns casos, a conduta é acompanhar com PSA e nova ressonância; em outros, a biópsia dirigida é a melhor escolha. Essa é uma decisão individual, conversada na consulta.
E depois do laudo? Os próximos passos
Com PI-RADS 4 ou 5, a recomendação habitual é a biópsia dirigida à lesão, muitas vezes combinada com amostras de outras áreas da próstata. Com PI-RADS 1 ou 2, a biópsia pode ser evitada em muitos casos, mas o acompanhamento com PSA continua importante, porque nenhum exame tem 100% de certeza. Com PI-RADS 3, vale a avaliação individualizada descrita acima.
Em todos os cenários, o laudo da ressonância deve ser interpretado junto com o PSA e com o exame clínico, por um urologista. Evite tirar conclusões apenas pelo número.
Perguntas Frequentes
PI-RADS 4 significa que tenho câncer? Não necessariamente. Significa que o risco de câncer clinicamente significativo é alto o bastante para que se indique a biópsia, que é o exame que confirma ou descarta o diagnóstico.
PI-RADS 3 precisa de biópsia? Nem sempre. A decisão considera o PSA, a densidade do PSA, o histórico familiar e outros fatores, e pode ser biópsia dirigida ou acompanhamento com PSA e nova ressonância.
Ressonância normal exclui câncer de próstata? Ela reduz bastante a chance de câncer clinicamente significativo, mas não a elimina. Por isso o acompanhamento com PSA e a avaliação do urologista continuam necessários.
A ressonância precisa de contraste? Em muitos casos, a ressonância sem contraste (biparamétrica) é suficiente, e o contraste fica reservado para situações selecionadas. A decisão cabe ao radiologista e ao urologista.
Posso comparar laudos de serviços diferentes? O PI-RADS foi criado justamente para padronizar, mas há variação entre radiologistas. Sempre que possível, faça os exames de controle no mesmo serviço e leve as imagens, não só o laudo, à consulta.
Referências
1. Turkbey B, Rosenkrantz AB, Haider MA, et al. Prostate Imaging Reporting and Data System Version 2.1: 2019 Update of Prostate Imaging Reporting and Data System Version 2. Eur Urol. 2019;76(3):340-351.
2. Oerther B, Engel H, Bamberg F, et al. Cancer detection rates of the PI-RADSv2.1 assessment categories: systematic review and meta-analysis on lesion level and patient level. Prostate Cancer Prostatic Dis. 2022;25:256-263.
3. Kasivisvanathan V, Rannikko AS, Borghi M, et al. MRI-Targeted or Standard Biopsy for Prostate-Cancer Diagnosis (PRECISION). N Engl J Med. 2018;378:1767-1777.
4. European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer (seção sobre diagnóstico e ressonância magnética).
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Dr. Rafael Viterbo
Urologista | Uro-oncologia
Av. Rio Branco, 185 - 428 - Centro, Rio de Janeiro




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