Pedra nos rins: da cólica renal ao tratamento definitivo
- Dr. Rafael Viterbo

- há 21 horas
- 6 min de leitura
Quem já teve uma cólica renal não esquece. A dor começa de repente, na lateral das costas, e sobe a uma intensidade que faz a pessoa não conseguir ficar parada em nenhuma posição. Muitos descrevem como a pior dor da vida — e há relatos de pacientes que a comparam ao parto.
O que talvez surpreenda é que a parte mais importante do tratamento raramente acontece no pronto-socorro. Ela vem depois, quando a dor já passou e o paciente é tentado a considerar o caso encerrado. Este texto cobre o caminho completo: por que a pedra se forma, o que fazer na crise, quando é preciso operar e como evitar que aconteça de novo.
Por que se forma uma pedra
A urina carrega substâncias dissolvidas — cálcio, oxalato, ácido úrico, fosfato. Quando a concentração dessas substâncias sobe demais, ou quando faltam os inibidores naturais que impedem a cristalização, elas se agrupam em cristais que crescem e viram cálculos.
A causa mais comum e mais banal é ingerir pouca água. Mas há outros fatores: dieta rica em sal e proteína animal, obesidade, calor e sudorese intensa, algumas doenças metabólicas, certos medicamentos e história familiar. Os cálculos de cálcio respondem pela maioria dos casos; os de ácido úrico são mais frequentes em pessoas com obesidade, diabetes e gota.
A doença é comum, atinge mais os homens e tem pico entre os 30 e os 50 anos. E tem uma característica cruel: quem teve uma vez tem risco considerável de ter de novo, se nada mudar.
Como é a cólica renal
A dor aparece quando a pedra sai do rim e obstrui o ureter, o canal fino que leva a urina até a bexiga. A pressão aumenta atrás da obstrução e é isso que dói — não a pedra em si.
Dor intensa em cólica, na lateral das costas, geralmente de um lado só
Irradiação para o abdome, virilha ou testículo à medida que a pedra desce
Náusea e vômito acompanhando a dor
Sangue na urina, às vezes visível, às vezes só no exame
Quando a pedra chega perto da bexiga: vontade urgente e frequente de urinar, com ardência
Uma observação importante: nem toda dor lombar é pedra, e nem toda pedra dói. Cálculos parados dentro do rim podem ser completamente silenciosos e aparecer por acaso em um exame feito por outro motivo.
Sinais de alarme: quando procurar atendimento imediato
Na maior parte das vezes a cólica renal é dolorosa, mas não perigosa. Existem situações, porém, em que a demora custa caro. Procure atendimento de urgência se houver:
Febre ou calafrios junto com a dor. A combinação de obstrução com infecção é uma emergência urológica: a urina infectada represada pode evoluir rapidamente para infecção generalizada. Nesses casos é preciso desobstruir o rim com urgência.
Vômitos incoercíveis, que impedem hidratação e uso de medicação por via oral.
Dor que não cede com a medicação prescrita.
Redução importante ou ausência de urina, sobretudo em quem tem um rim único.
Confusão mental, queda de pressão ou sensação de desmaio.
Como se faz o diagnóstico
A tomografia computadorizada de abdome sem contraste é o exame de escolha: mostra a pedra, o tamanho, a localização exata e o grau de obstrução, com alta precisão. O ultrassom é uma alternativa útil em gestantes, crianças e no acompanhamento, evitando radiação. Radiografia simples ajuda a acompanhar cálculos que aparecem nela, mas não serve para diagnóstico inicial.
Exames de sangue e urina complementam a avaliação — função renal, sinais de infecção e presença de sangue.
A pedra sai sozinha?
Depende principalmente do tamanho e da posição. Como regra geral:
Cálculos menores que 5 mm têm boa chance de eliminação espontânea
Entre 5 e 10 mm a chance cai bastante e o tempo até a eliminação aumenta
Acima de 10 mm a eliminação espontânea é pouco provável e a intervenção costuma ser necessária
Quanto mais perto da bexiga, maior a chance de sair. Nesses casos, o tratamento inicial pode ser expectante: analgesia adequada, hidratação e, em situações selecionadas, medicação que relaxa o ureter para facilitar a passagem. Esse período de espera tem prazo — não se acompanha indefinidamente um rim obstruído, porque a obstrução prolongada danifica o órgão.
Quando é preciso intervir — e como
As opções variam conforme tamanho, localização, composição e anatomia:
Litotripsia extracorpórea (LECO). Ondas de choque aplicadas de fora do corpo fragmentam a pedra, que depois é eliminada pela urina. Não invasiva, indicada para cálculos selecionados de menor tamanho e densidade.
Ureterolitotripsia com laser. Um aparelho fino entra pelo canal natural da urina até a pedra, que é fragmentada com laser e retirada. Não há cortes. É hoje o procedimento mais versátil, usado tanto no ureter quanto dentro do rim, com aparelhos flexíveis.
Nefrolitotripsia percutânea. Para cálculos grandes, geralmente acima de 2 cm, ou coraliformes. Acessa-se o rim por uma pequena punção nas costas.
Desobstrução de urgência. Quando há infecção associada, a prioridade não é retirar a pedra, e sim drenar o rim — com cateter duplo J ou nefrostomia. A pedra é tratada depois, com o quadro infeccioso controlado.
Muitos pacientes ficam com um cateter duplo J por algum tempo após o procedimento. Ele costuma causar desconforto e urgência urinária — é incômodo, mas temporário e necessário.
A dor passou. E agora?
Este é o erro mais comum que vejo. A dor cede e o paciente conclui que eliminou a pedra. Nem sempre foi isso que aconteceu.
A dor pode ceder simplesmente porque a pedra parou de se mover — e uma pedra parada continua obstruindo. A obstrução silenciosa é traiçoeira: sem dor alguma, ao longo de semanas a meses, ela pode causar perda progressiva e irreversível da função daquele rim.
Por isso, depois de uma cólica renal, é preciso confirmar por exame se a pedra realmente saiu. Se você não viu a pedra ser eliminada, não presuma que ela se foi. Um ultrassom ou tomografia de controle resolve a dúvida.
O que a tomografia mostra além da pedra
Há um efeito colateral positivo da investigação: a tomografia examina todo o abdome, não só o rim doente. Não é raro que ela revele achados que ninguém procurava — um cisto renal, um nódulo sólido no rim ou alterações em outros órgãos.
A maioria desses achados é benigna e não exige nada além de acompanhamento. Alguns, porém, merecem investigação — e são justamente esses os tumores renais descobertos precocemente, quando ainda é possível tratar preservando o órgão, como explico no texto sobre nefrectomia parcial. Vale a pena ler o laudo inteiro, não só a linha que fala da pedra.
Vale o mesmo raciocínio para o sangue na urina: se ele persistir depois que a pedra foi resolvida, precisa ser investigado por conta própria — e escrevi sobre isso em sangue na urina.
Como evitar que volte
A prevenção é a parte mais negligenciada e a que mais muda o futuro:
Água, em quantidade suficiente. A meta prática é produzir cerca de 2 a 2,5 litros de urina por dia, o que costuma exigir ingestão maior do que isso, sobretudo em clima quente. Urina clara é um bom indicador.
Menos sal. O excesso de sódio aumenta a excreção de cálcio na urina — este é um dos ajustes de maior impacto.
Moderar proteína animal, carnes vermelhas e vísceras, especialmente em cálculos de ácido úrico.
Não cortar cálcio da dieta. Este é um mal-entendido frequente: restringir cálcio alimentar aumenta a absorção de oxalato e pode piorar a formação de pedras. O cálcio da comida é protetor.
Controlar peso e síndrome metabólica.
Avaliação metabólica em quem tem cálculos recorrentes, cálculo em rim único, história familiar forte ou composição incomum. Ela inclui análise da pedra eliminada e exames de sangue e urina de 24 horas, e permite tratamento dirigido à causa.
Guardar a pedra eliminada e levá-la para análise parece um detalhe menor, mas é uma das informações mais úteis que existem para orientar a prevenção.
Perguntas Frequentes
Cerveja ajuda a eliminar pedra nos rins?
Não. O aumento do volume urinário provocado pelo álcool é temporário e vem acompanhado de desidratação posterior, o que favorece novos cálculos. Água é a resposta.
Pedra nos rins pode causar insuficiência renal?
Pode, quando há obstrução prolongada não tratada, cálculos recorrentes ou infecções repetidas. É exatamente por isso que confirmar a eliminação da pedra e tratar a causa importa tanto.
Preciso operar toda pedra encontrada no rim?
Não. Cálculos pequenos, parados dentro do rim e sem sintomas podem ser apenas acompanhados. A decisão depende do tamanho, da localização, dos sintomas e do risco de crescimento.
Quanto tempo demora para uma pedra ser eliminada?
Cálculos pequenos costumam sair em dias a algumas semanas. Se passar desse prazo sem eliminação, ou se houver piora, a conduta precisa ser revista — não se espera indefinidamente.
Devo parar de tomar leite e comer queijo?
Não. Restringir cálcio da dieta é contraproducente e pode aumentar o risco de novas pedras. O que precisa ser reduzido é o sal, e não o cálcio alimentar.
Tive uma pedra. Vou ter de novo?
O risco de recorrência é considerável se nada mudar nos hábitos. Com hidratação adequada, ajustes na dieta e, quando indicado, tratamento dirigido pela avaliação metabólica, esse risco cai bastante.
Referências
European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urolithiasis.
American Urological Association (AUA). Surgical Management of Stones: Guideline.
American Urological Association (AUA). Medical Management of Kidney Stones: Guideline.
Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).
Ministério da Saúde. Litíase urinária.
Leia também
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Dor lombar intensa com febre exige atendimento de urgência.
Dr. Rafael Viterbo — urologista e uro-oncologista, Rio de Janeiro/RJ. Av. Rio Branco 185, sala 428 — Centro.



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