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Pedra nos rins: da cólica renal ao tratamento definitivo

Quem já teve uma cólica renal não esquece. A dor começa de repente, na lateral das costas, e sobe a uma intensidade que faz a pessoa não conseguir ficar parada em nenhuma posição. Muitos descrevem como a pior dor da vida — e há relatos de pacientes que a comparam ao parto.

O que talvez surpreenda é que a parte mais importante do tratamento raramente acontece no pronto-socorro. Ela vem depois, quando a dor já passou e o paciente é tentado a considerar o caso encerrado. Este texto cobre o caminho completo: por que a pedra se forma, o que fazer na crise, quando é preciso operar e como evitar que aconteça de novo.

Por que se forma uma pedra

A urina carrega substâncias dissolvidas — cálcio, oxalato, ácido úrico, fosfato. Quando a concentração dessas substâncias sobe demais, ou quando faltam os inibidores naturais que impedem a cristalização, elas se agrupam em cristais que crescem e viram cálculos.

A causa mais comum e mais banal é ingerir pouca água. Mas há outros fatores: dieta rica em sal e proteína animal, obesidade, calor e sudorese intensa, algumas doenças metabólicas, certos medicamentos e história familiar. Os cálculos de cálcio respondem pela maioria dos casos; os de ácido úrico são mais frequentes em pessoas com obesidade, diabetes e gota.

A doença é comum, atinge mais os homens e tem pico entre os 30 e os 50 anos. E tem uma característica cruel: quem teve uma vez tem risco considerável de ter de novo, se nada mudar.

Como é a cólica renal

A dor aparece quando a pedra sai do rim e obstrui o ureter, o canal fino que leva a urina até a bexiga. A pressão aumenta atrás da obstrução e é isso que dói — não a pedra em si.

  • Dor intensa em cólica, na lateral das costas, geralmente de um lado só

  • Irradiação para o abdome, virilha ou testículo à medida que a pedra desce

  • Náusea e vômito acompanhando a dor

  • Sangue na urina, às vezes visível, às vezes só no exame

  • Quando a pedra chega perto da bexiga: vontade urgente e frequente de urinar, com ardência

Uma observação importante: nem toda dor lombar é pedra, e nem toda pedra dói. Cálculos parados dentro do rim podem ser completamente silenciosos e aparecer por acaso em um exame feito por outro motivo.

Sinais de alarme: quando procurar atendimento imediato

Na maior parte das vezes a cólica renal é dolorosa, mas não perigosa. Existem situações, porém, em que a demora custa caro. Procure atendimento de urgência se houver:

  • Febre ou calafrios junto com a dor. A combinação de obstrução com infecção é uma emergência urológica: a urina infectada represada pode evoluir rapidamente para infecção generalizada. Nesses casos é preciso desobstruir o rim com urgência.

  • Vômitos incoercíveis, que impedem hidratação e uso de medicação por via oral.

  • Dor que não cede com a medicação prescrita.

  • Redução importante ou ausência de urina, sobretudo em quem tem um rim único.

  • Confusão mental, queda de pressão ou sensação de desmaio.

Como se faz o diagnóstico

A tomografia computadorizada de abdome sem contraste é o exame de escolha: mostra a pedra, o tamanho, a localização exata e o grau de obstrução, com alta precisão. O ultrassom é uma alternativa útil em gestantes, crianças e no acompanhamento, evitando radiação. Radiografia simples ajuda a acompanhar cálculos que aparecem nela, mas não serve para diagnóstico inicial.

Exames de sangue e urina complementam a avaliação — função renal, sinais de infecção e presença de sangue.

A pedra sai sozinha?

Depende principalmente do tamanho e da posição. Como regra geral:

  • Cálculos menores que 5 mm têm boa chance de eliminação espontânea

  • Entre 5 e 10 mm a chance cai bastante e o tempo até a eliminação aumenta

  • Acima de 10 mm a eliminação espontânea é pouco provável e a intervenção costuma ser necessária

Quanto mais perto da bexiga, maior a chance de sair. Nesses casos, o tratamento inicial pode ser expectante: analgesia adequada, hidratação e, em situações selecionadas, medicação que relaxa o ureter para facilitar a passagem. Esse período de espera tem prazo — não se acompanha indefinidamente um rim obstruído, porque a obstrução prolongada danifica o órgão.

Quando é preciso intervir — e como

As opções variam conforme tamanho, localização, composição e anatomia:

  • Litotripsia extracorpórea (LECO). Ondas de choque aplicadas de fora do corpo fragmentam a pedra, que depois é eliminada pela urina. Não invasiva, indicada para cálculos selecionados de menor tamanho e densidade.

  • Ureterolitotripsia com laser. Um aparelho fino entra pelo canal natural da urina até a pedra, que é fragmentada com laser e retirada. Não há cortes. É hoje o procedimento mais versátil, usado tanto no ureter quanto dentro do rim, com aparelhos flexíveis.

  • Nefrolitotripsia percutânea. Para cálculos grandes, geralmente acima de 2 cm, ou coraliformes. Acessa-se o rim por uma pequena punção nas costas.

  • Desobstrução de urgência. Quando há infecção associada, a prioridade não é retirar a pedra, e sim drenar o rim — com cateter duplo J ou nefrostomia. A pedra é tratada depois, com o quadro infeccioso controlado.

Muitos pacientes ficam com um cateter duplo J por algum tempo após o procedimento. Ele costuma causar desconforto e urgência urinária — é incômodo, mas temporário e necessário.

A dor passou. E agora?

Este é o erro mais comum que vejo. A dor cede e o paciente conclui que eliminou a pedra. Nem sempre foi isso que aconteceu.

A dor pode ceder simplesmente porque a pedra parou de se mover — e uma pedra parada continua obstruindo. A obstrução silenciosa é traiçoeira: sem dor alguma, ao longo de semanas a meses, ela pode causar perda progressiva e irreversível da função daquele rim.

Por isso, depois de uma cólica renal, é preciso confirmar por exame se a pedra realmente saiu. Se você não viu a pedra ser eliminada, não presuma que ela se foi. Um ultrassom ou tomografia de controle resolve a dúvida.

O que a tomografia mostra além da pedra

Há um efeito colateral positivo da investigação: a tomografia examina todo o abdome, não só o rim doente. Não é raro que ela revele achados que ninguém procurava — um cisto renal, um nódulo sólido no rim ou alterações em outros órgãos.

A maioria desses achados é benigna e não exige nada além de acompanhamento. Alguns, porém, merecem investigação — e são justamente esses os tumores renais descobertos precocemente, quando ainda é possível tratar preservando o órgão, como explico no texto sobre nefrectomia parcial. Vale a pena ler o laudo inteiro, não só a linha que fala da pedra.

Vale o mesmo raciocínio para o sangue na urina: se ele persistir depois que a pedra foi resolvida, precisa ser investigado por conta própria — e escrevi sobre isso em sangue na urina.

Como evitar que volte

A prevenção é a parte mais negligenciada e a que mais muda o futuro:

  • Água, em quantidade suficiente. A meta prática é produzir cerca de 2 a 2,5 litros de urina por dia, o que costuma exigir ingestão maior do que isso, sobretudo em clima quente. Urina clara é um bom indicador.

  • Menos sal. O excesso de sódio aumenta a excreção de cálcio na urina — este é um dos ajustes de maior impacto.

  • Moderar proteína animal, carnes vermelhas e vísceras, especialmente em cálculos de ácido úrico.

  • Não cortar cálcio da dieta. Este é um mal-entendido frequente: restringir cálcio alimentar aumenta a absorção de oxalato e pode piorar a formação de pedras. O cálcio da comida é protetor.

  • Controlar peso e síndrome metabólica.

  • Avaliação metabólica em quem tem cálculos recorrentes, cálculo em rim único, história familiar forte ou composição incomum. Ela inclui análise da pedra eliminada e exames de sangue e urina de 24 horas, e permite tratamento dirigido à causa.

Guardar a pedra eliminada e levá-la para análise parece um detalhe menor, mas é uma das informações mais úteis que existem para orientar a prevenção.

Perguntas Frequentes

Cerveja ajuda a eliminar pedra nos rins?

Não. O aumento do volume urinário provocado pelo álcool é temporário e vem acompanhado de desidratação posterior, o que favorece novos cálculos. Água é a resposta.

Pedra nos rins pode causar insuficiência renal?

Pode, quando há obstrução prolongada não tratada, cálculos recorrentes ou infecções repetidas. É exatamente por isso que confirmar a eliminação da pedra e tratar a causa importa tanto.

Preciso operar toda pedra encontrada no rim?

Não. Cálculos pequenos, parados dentro do rim e sem sintomas podem ser apenas acompanhados. A decisão depende do tamanho, da localização, dos sintomas e do risco de crescimento.

Quanto tempo demora para uma pedra ser eliminada?

Cálculos pequenos costumam sair em dias a algumas semanas. Se passar desse prazo sem eliminação, ou se houver piora, a conduta precisa ser revista — não se espera indefinidamente.

Devo parar de tomar leite e comer queijo?

Não. Restringir cálcio da dieta é contraproducente e pode aumentar o risco de novas pedras. O que precisa ser reduzido é o sal, e não o cálcio alimentar.

Tive uma pedra. Vou ter de novo?

O risco de recorrência é considerável se nada mudar nos hábitos. Com hidratação adequada, ajustes na dieta e, quando indicado, tratamento dirigido pela avaliação metabólica, esse risco cai bastante.

Referências

  • European Association of Urology (EAU). Guidelines on Urolithiasis.

  • American Urological Association (AUA). Surgical Management of Stones: Guideline.

  • American Urological Association (AUA). Medical Management of Kidney Stones: Guideline.

  • Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

  • Ministério da Saúde. Litíase urinária.

Leia também

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Dor lombar intensa com febre exige atendimento de urgência.

Dr. Rafael Viterbo — urologista e uro-oncologista, Rio de Janeiro/RJ. Av. Rio Branco 185, sala 428 — Centro.

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