Câncer de testículo e fertilidade: o que você precisa saber
- Dr. Rafael Viterbo

- 3 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
O câncer de testículo é a neoplasia sólida mais comum em homens entre 15 e 35 anos — exatamente a faixa etária em que a paternidade é frequentemente planejada. A boa notícia é que as taxas de cura são superiores a 95%, mesmo nos casos avançados. A má notícia é que o tratamento pode comprometer temporária ou permanentemente a fertilidade. Por isso, a preservação da fertilidade deve fazer parte do planejamento terapêutico desde o diagnóstico.
Como a Orquiectomia Afeta a Fertilidade?
A orquiectomia radical remove apenas o testículo acometido. Desde que o testículo contralateral seja saudável e funcional, a produção de espermatozoides e de testosterona pode ser mantida de forma satisfatória pelo lado remanescente.
No entanto, é importante saber que muitos pacientes com câncer de testículo já apresentam comprometimento da função espermática antes mesmo da cirurgia — possivelmente relacionado à criptorquidia, febre, atrofia testicular ou ao próprio processo tumoral. Por essa razão, o espermograma pré-operatório é recomendado para todos os pacientes em idade fértil.
Criopreservação de Espermatozoides: o Banco de Sêmen
O banco de sêmen (criopreservação espermática) é a medida mais importante para a preservação da fertilidade em pacientes com câncer de testículo. Idealmente, deve ser realizado antes do início de qualquer tratamento — inclusive antes da orquiectomia, se possível.
O processo consiste na coleta de sêmen por masturbação, análise laboratorial e congelamento das amostras em nitrogênio líquido (-196°C). O sêmen criopreservado pode ser mantido por décadas sem perda significativa de viabilidade espermática.
As diretrizes da EAU (2024) e da ASCO recomendam formalmente o banco de sêmen antes do tratamento para todos os pacientes em idade reprodutiva. Mesmo amostras com parâmetros subótimos (baixa concentração ou motilidade) têm valor clínico quando utilizadas em técnicas de reprodução assistida como a ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide).
Quimioterapia e Fertilidade: O Protocolo BEP
O protocolo BEP (bleomicina, etoposídeo e cisplatina) é o esquema quimioterápico padrão para câncer de testículo. A cisplatina é gonadotóxica — ela danifica as células germinativas do testículo, reduzindo ou suprimindo a produção de espermatozoides.
O grau de comprometimento depende do número de ciclos:
1-2 ciclos de BEP: azoospermia temporária é frequente, com recuperação espermática em 12-24 meses na maioria dos casos
3-4 ciclos de BEP: recuperação é mais lenta (24-36 meses) e incompleta em alguns pacientes
Mais de 4 ciclos ou esquemas de segunda linha (VeIP, TIP): risco mais elevado de azoospermia permanente
Um estudo publicado no Journal of Clinical Oncology demonstrou que cerca de 50-70% dos pacientes que receberam 3-4 ciclos de BEP recuperaram parâmetros espermáticos adequados para concepção natural ou assistida em até 5 anos após o tratamento.
Radioterapia e Fertilidade
A radioterapia retroperitoneal (para seminomas em estágio I-IIA) pode provocar dispersão de radiação para o testículo contralateral, mesmo com proteção escrotal. A dose de dispersão varia de 1 a 3 Gy — quantidade suficiente para suprimir temporariamente a espermatogênese.
A recuperação espermática após radioterapia ocorre tipicamente em 12-24 meses. O uso de protetor escrotal durante o tratamento é mandatório para minimizar a dose de dispersão. Atualmente, devido ao risco de toxicidade e à excelente resposta da quimioterapia, a radioterapia adjuvante tem sido progressivamente substituída por 1-2 ciclos de carboplatina em estágio I.
Quando é Seguro Tentar Engravidar Após o Tratamento?
As recomendações internacionais orientam aguardar ao menos 12 meses após o término da quimioterapia antes de tentar a concepção natural, para permitir que os espermatozoides gerados após o tratamento não sejam portadores de danos ao DNA.
Tranquilizadoramente, estudos populacionais amplos — incluindo dados de registros escandinavos com milhares de pacientes — não demonstraram aumento nas taxas de malformações congênitas, abortos espontâneos ou doenças genéticas em filhos concebidos após quimioterapia, desde que respeitado o intervalo de segurança.
Alternativas em Caso de Azoospermia Persistente
Para pacientes com azoospermia que não tinham sêmen criopreservado previamente, existem opções de reprodução assistida:
TESE (extração de espermatozoides testiculares): procedimento cirúrgico que busca espermatozoides diretamente no parênquima testicular remanescente, com taxa de sucesso de 30-60% em pacientes com azoospermia pós-quimioterapia.
ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide): permite a fecundação do óvulo com um único espermatozoide, viabilizando a gravidez mesmo com parâmetros espermáticos muito comprometidos.
Doação de espermatozoides: alternativa para casos de azoospermia permanente sem espermatozoides recuperáveis.
Perguntas Frequentes sobre Fertilidade e Câncer de Testículo
Devo fazer banco de sêmen antes da cirurgia para retirar o testículo?
Sim, é fortemente recomendado. O banco de sêmen deve ser realizado antes de qualquer tratamento — inclusive antes da orquiectomia, se possível. Mesmo amostras com parâmetros subótimos têm valor clínico quando utilizadas em técnicas de reprodução assistida como a ICSI. A janela entre o diagnóstico e a cirurgia geralmente permite realizar a criopreservação sem atrasar o tratamento.
Com apenas um testículo consigo ter filhos naturalmente?
Na maioria dos casos, sim. O testículo remanescente, quando saudável, é capaz de manter produção espermática e hormonal adequadas. Estudos mostram que cerca de 70-80% dos pacientes submetidos a orquiectomia unilateral sem quimioterapia subsequente conseguem concepção natural. O espermograma pós-operatório é recomendado para confirmar a função do testículo contralateral.
Quanto tempo após a quimioterapia BEP posso tentar engravidar?
As recomendações internacionais orientam aguardar pelo menos 12 meses após o último ciclo de quimioterapia. Esse período permite a renovação completa das células germinativas (espermatogênese dura ~74 dias) e evita que espermatozoides gerados durante a quimioterapia — que podem ter danos ao DNA — participem da fecundação. Estudos populacionais não mostram aumento de malformações respeitado esse intervalo.
O testículo único produz testosterona suficiente?
Em geral, sim. O testículo contralateral sadio compensa a perda do testículo retirado através de hipertrofia compensatória e aumento da secreção de LH hipofisário. A grande maioria dos pacientes mantém testosterona dentro da faixa normal. Recomenda-se dosar testosterona e FSH 3-6 meses após a orquiectomia para confirmar a função endócrina adequada.
O que fazer se fiquei sem espermatozoides após a quimioterapia e não fiz banco antes?
A recuperação espermática é possível para muitos pacientes. O TESE (extração de espermatozoides testiculares) busca células germinativas diretamente no parênquima do testículo remanescente, com taxa de sucesso de 30-60% em azoospermia pós-quimioterapia. Os espermatozoides obtidos são usados via ICSI. Se não houver recuperação, doação de sêmen é a alternativa.
Filhos concebidos após quimioterapia têm maior risco de problemas genéticos?
Não, segundo os dados disponíveis. Estudos escandinavos com milhares de pacientes compararam as taxas de malformações congênitas, abortos espontâneos e doenças nas crianças de pais sobreviventes de câncer de testículo versus a população geral, sem encontrar diferença significativa — desde que o período mínimo de 12 meses após a quimioterapia seja respeitado.
Referências
European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Testicular Cancer. Disponível em: uroweb.org/guidelines
American Urological Association (AUA). Diagnosis and Treatment of Early-Stage Testicular Cancer: AUA Guideline. Disponível em: www.auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines
American Society of Clinical Oncology (ASCO). Fertility Preservation in People With Cancer: ASCO Guideline. Disponível em: society.asco.org/practice-patients/guidelines
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Dr. Rafael Viterbo
Urologista | Uro-oncologia
Av. Rio Branco, 185 - 428 - Centro, Rio de Janeiro


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